Irlanda, um paraíso emprestado

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Por Mariana de Barros Pereira

Paraíso? Sério?

Bom, vou explicar o motivo do Paraíso emprestado, mas já aviso: é pra lá de óbvio depois que todos entenderem. “Borrowed Heaven” é o nome do meu álbum favorito do The Corrs e considerando a origem da minha banda favorita, nada soaria mais certo para celebrar uma data tão importante como essa. Sim, completei 01 ANO DE IRLANDA.

Vivia pulsante dentro de mim essa vontade de sair da própria casca, de desafiar-se ao extremo, de romper barreiras e, principalmente, de deixar a zona quentinha de conforto. Convivi com essa certeza durante toda minha vida, porém, faltava agir conforme minhas vontades, desejos e o mais especial deles: meus sonhos.

Sempre fui minha pior inimiga, aquela que se “gonga” em frações de segundos, que duvida de si mesma até quando a situação e a opinião alheia é favorável. Diversos momentos cheguei a questionar porque as coisas estavam dando certo, se a tendência é que dessem errado. Isso não se chama negativismo, se chama falta de crença em si mesma e isso eu tinha pra dar e vender a alguns anos atrás.

2009 foi o ano que minha “Little Me” começava a se debater mais e mais e ainda que sempre parecesse estar no controle, conforme amadureci e transitei da adolescência para a vida jovem adulta, essa pequena passou a perder o espaço. Principalmente porque suas atitudes, medos e boicotes não condiziam mais com a jovem mulher que gradativamente me transformava.

Sabe quem me ajudou a enxergar isso? Minha terapeuta Maysa, que leva esse apelido por parecer-se com a atriz Larissa Maciel, que interpretou a cantora “Meu Mundo Caiu” na minissérie da Globo.

Esse mesmo 2009 foi o ano que decidi me presentear com o “De Frente com Maysa”, um momento de extrema vulnerabilidade e significância pessoal que ainda é visto com olhar preconceituoso pela sociedade.

Recebi diversas manifestações de apoio de familiares, amigos e colegas de trabalho, estes que na época, inclusive, até me liberavam mais cedo para que eu não perdesse minhas sessões semanais.

Acredito que tudo que lhe seja benéfico é valido, ainda mais quando recebes um chamado da vida. Aquele era o momento que aquela voz na minha mente começava a falar mais alto, clamando que eu precisava me apoderar mais da minha própria vida e dar voz aos sonhos e tudo aquilo que ainda desejava. E depois de um forte colapso emocional, me permiti pensar em mim e pra mim mesma.

Dentre tapas e beijos, minha relação com meus pais sempre foi muito boa, regada de presença, dedicação, amor e sacrifício. Aprendi com o passar do tempo a ser mais tolerante, a enxergar os dois lados da moeda e acreditar que se ainda existir Amor, tudo é possível.

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Não sou uma romântica nata, aliás essa sempre foi uma das temáticas mais “Bicho de 7 cabeças” de abordar durante minhas sessões e olha que não faltavam cutucões e provocações até que bem-humoradas por parte da Maysa. Mesmo assim, tive certeza que o respeito e amor combinados sobrepõem qualquer obstáculo, por mais nebulosa, turbulenta e desesperadora que seja a travessia.

Foram cinco anos atravessando São Paulo para chegar até o consultório e digo que todo o esforço valeu a pena, pois, somando a dedicação dos meus pais ao longo dos meus vinte e nove anos e com a relação criada com a Maysa, hoje posso dizer com clareza que sou quem eu devo ser.

“I finally felt that I stepped into my own skin. I’ve spent my whole life trying to be the best version of myself, and I’ve finally let myself just be me.”

Joy Williams, minha querida cantora, mais conhecida por ser parte do extinto The Civil Wars, não poderia ter colocado em melhores palavras, pois assim como ela se sentiu pós-término do duo e todas as dificuldades enfrentadas em sua vida pessoal, estas que refletem em seu maravilhoso novo trabalho solo, eu passei a entender que já estava na hora de parar de tentar ser a MELHOR VERSÃO DE MIM MESMA para simplesmente passar a ser EU MESMA.

IMG_0449Isso não nos impede de amadurecer, pelo contrário, nos faz acreditar que quem somos é suficiente e que existirão pessoas que irão nos valorizar por isso, seja no âmbito social, profissional ou afetivo.

Aprendi a lição mais valiosa de todas para uma pessoa que sempre colocara aqueles que ama acima de si mesma. Aprendi que devo ser minha Amiga em primeiro lugar, pois somente assim poderia estar bem para os demais, principalmente meus pais, nos quais me preocupo e tento ser tão presente e amorosa como eles sempre foram e serão comigo.

Aprendi que não tem problema ser vulnerável, surtada, bondosa e batalhadora ao mesmo tempo, pois é assim que me sinto, um turbilhão de qualidades e defeitos, sendo que o segundo é mais fácil de ressaltar. Afinal, qualquer pessoa sabe bem quão difícil é nomear aquilo que tem de bom a oferecer.

She’s imperfect but she tries
She is good but she lies.
She is hard on herself.
She is broken but won’t ask for help.
She is messy but she’s kind.
She is lonely most of the time.
She is all of this mixed up
And baked in a beautiful pie.
She is gone but she used to be mine

Sempre serei aquela pessoa que estende a mão àqueles que amo sem pensar duas vezes, mas, quando o negócio é reverso, aí que a dificuldade começa. Não me considero uma pessoa orgulhosa, talvez turrona e um pouco rancorosa – sou canceriana duh –, mas tenho uma notável tendência de não saber pedir ajuda, algo que já trabalhei muito pra mudar.

Preocupação. Sempre fui e sempre serei preocupada com tudo que faço, com as pessoas importantes na minha vida e no rumo que dou e quero dar pra minha. Por vezes, transbordo estresse e tensão, mas tudo isso é parte do turbilhão de emoções que habitam dentro de mim. Sou emoção pulsante 24hrs por dia.

Exaustivo? Com certeza. Mas passei a aprender a enxergar positivamente esse meu lado intenso e, assim, usá-lo a meu favor. Aprendi que não há nada de errado em querer que as coisas saiam da maneira correta e, principalmente, respeitar suas opiniões e seu caráter nesse processo.

Solidão e sentir-se sozinha são duas sensações diferentes, mas aprendi a lidar com elas em diferentes estágios de minha vida. Ambas tornaram-se companhias indesejáveis, mas que me proporcionaram muita força de vontade e persistência para continuar. Afinal, por mais que minha “Little Me” me derrube, lá está meu verdadeiro EU para me reerguer e sacudir a poeira deixada instantes atrás.

Voltando a navegar nos sonhos, eis que a um ano atrás pude realizar um dos meus maiores sonhos: morar fora. Quando digo fora, quero dizer fora de casa, fora do país e, por vezes, fora de mim mesma.

Nunca tive dúvida para aonde ir nessa nova jornada. Irlanda sempre esteve no meu coração e mente, e esse sonho aumentou mais ainda graças as conversas que tive com minha coordenada, e hoje grande amiga Gigi Botelho em meados de 2010, esta que vivera na Ilha Esmeralda quase dois anos. Graças aos nossos deliciosos papos, o amor que já sentia pelo país do meu Corrs, da Guinness, dos potes de ouro, arpas e trevos cresceu ainda mais.

Às vezes, questionei se teria coragem de embarcar senão tivesse três grandes amigos a me aguardar de braços abertos, dispostos a me segurar com carinho caso eu fraquejasse. Confesso que cheguei a tirar o crédito da minha escolha e iniciativa.

Precisei estar aonde estou e encarar-me no espelho pra perceber que sim, eles colaboraram no processo, mas foi a minha bravura, esforço e emocional que foram colocados em prova e que permitiram manter meus dois pés fincados no chão, mesmo quando tudo que mais queria era sair correndo de medo.

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Vivi os primeiros meses no frenesi deste paraíso emprestado e dentre perrengues do primeiro emprego, as horas loucas e todo o mimimi enfrentado desde que encarei esse desafio, concluí que havia um propósito para tudo isto e foram esses momentos não tão bons que me fortaleceram em Dublin.

Ganhei presentes pra toda vida, entre eles um amigo celestial de tão especial e único que és. Dentre momentos memoráveis e infortúnios, fui contemplada com sua presença e, sem dúvida, nos dias mais difíceis, foram suas palavras de incentivo e fé que me motivaram a seguir.

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Todos devemos, em qualquer momento da vida, nos permitir. Permitir sair. Permitir mudar. Permitir viajar. Permitir trabalhar duro. Permitir relaxar. Permitir amar.

Ah, o Amor. Como o temo e ao mesmo tempo não vejo a hora de desbravá-lo, pois no fundo sei que ele não é lá aquele “Bicho de 7 Cabeças” que tanto prego no meu coração e mente, estes por vezes tão desconexos.

Como diria meu shipper favorito televisivo:

“Confidence, Cohen”!

E se me perguntas porque saí de São Paulo rumo à Dublin, acho que uma das respostas se torna mais evidente dentro de mim: saí em busca do meu Amor. Quando digo Amor, digo o Amor Universal, que contempla eu mesma e também o outro. E, por mais sozinha que as vezes me sinta, sei que dia a dia me encontro cada vez mais paciente e em paz comigo mesma.

Por fim, um imenso obrigada de coração aberto a todos que, direta ou indiretamente, me ajudaram a conquistar esse sonho. Aos meus pais, pela abnegação, amor e afeto desde meu primeiro suspiro. Aos meus familiares, pelo carinho e palavras de incentivo.

A minha melhor amiga Laís, por comprovar que vinte e dois anos de amizade nem mesmo oceanos conseguem separar. A Gigi Botelho, por dividir seu amor pela Ilha Esmeralda. Aos meus amigos, por acreditarem que sou “Brave Enough” e por me incluírem em suas vidas. A minha família “Home Sweet Home”, por fazerem deste paraíso emprestado um aconchegante lar.

E um agradecimento em especial ao meu amado casal Mariana e Gabriel; Pelugem Adriano e o Anjo Alex, que andaram lado a lado comigo nessa jornada.

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Sláinte

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4 comentários sobre “Irlanda, um paraíso emprestado

  1. Mariana, fiquei emocionada, feliz e orgulhosa ao ler seu relato.
    Me vi em algumas partes.
    Nunca duvidei que você conseguiria alcançar seus objetivos.
    Um grande beijo, vc é muito especial.
    Bel

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  2. Metade, que relato maravilhoso!
    Para quem acompanhou você nesse processo, não tem como ler o seu texto e não ser inundado por uma felicidade tão grande em ver o quanto você está aprendendo e conquistando nesse “Paraíso Emprestado”.
    A sua coragem de ir em busca do seu EU, me orgulha e me encoraja a sempre ir em busca do meu EU, e olha que isso nem é porque somos “quase” a mesma pessoa! kkkk Mas sim porque a cada dia que passa te vejo mais forte, mais confiante e mais no controle de si mesma. Mesmo nos momentos mais conturbados, você tem encontrado por si só a sua força e se ergue novamente! Tu merece todos os aplausos por isso, Metade!!
    Ainda há muita coisa para aprender, muita coisa para aprender, mas é com grande alegria que comemoro contigo seu primeiro ano em Dublin! ❤

    Te amo, M.

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  3. Parabéns Mariana! Menina forte, preocupada e decidida! Parabéns papais por esta filhota tão amada! Continue a sua jornada, pois esta vida é como uma colcha de retalhos: tecendo os pequenos quadrinhos,combinando suas cores e tecidos, para se transformar em uma magnífica colcha valiosíssima, esplendorosa como as que minha vovó fazia! bjs

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