Eu acredito no Girl Power

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Por Juliana Bassan Ayon

Éramos eu e mais 3 amigas inseparáveis. Estudávamos juntas e nos dávamos muito bem. Nos sentíamos maduras, maiorais e inatingíveis. Três de nós estávamos namorando e sempre saíamos todas juntas. Daí um dia uma largou o namorado.

Foram vários acontecimentos até chegar a esse fim, mas em meio a muitas coisas acontecendo, ela estava finalmente se sentindo livre, dona de si novamente.

Ela estava bem com ela mesma, fazendo o que tinha vontade, beijando os caras que ela queria. Não demorou muito para que ela virasse motivo de falatório. Ganhou diversos apelidos, foi taxada de biscate, piranha, vadia. Ela não estava “se dando ao respeito”. E alguns caras que nem com ela tinham ficado começaram a espalhar que tinham ficado com ela e, inclusive, ido mais além.

Os caras podiam fazer isso desde que o mundo era mundo, mas onde já se viu uma menina se comportar assim? Ela tinha que pagar pela audácia.

Ela virou o assunto preferido das rodinhas. Todo mundo sabia quem ela era e todos tinham alguma história para contar. Eu me meti em muitas discussões para defender, mas não são dessas que eu me lembro. Ainda me corrói por dentro quando lembro das vezes que eu ouvi falarem coisas dela e não me posicionei e não a defendi. Porque dentro de mim, porque na minha cabeça limitada e preconceituosamente moldada desde quando eu era criança, aquilo de certa forma tinha a sua razão de ser.

Foi uma guerra contraditória dentro de mim. Eu não conhecia o feminismo, eu ainda não enxergava totalmente que as mulheres têm o direito de serem e fazerem o que quiserem. Graças a essa educação machista e limitada que a sociedade nos impõe, chegamos ao triste absurdo de chamá-la num canto e pedir que ela parasse, que ela começasse a “se valorizar”, porque senão nenhum cara iria querer namorar com ela.

Ela argumentou que a maioria do que estavam dizendo era mentira, que era boato e chorou. Dissemos que como “boas amigas” que éramos, tínhamos que protegê-la e era isso que estávamos fazendo.

Mas no fundo, o grande medo era o de ser taxada de vadia também. E dos nossos namorados se importarem com aquilo. Sucumbimos a pressão do mundo, nos deixamos vencer. Calamos o nosso próprio discurso de que poderíamos ser o que quiséssemos, que poderíamos fazer o que tivéssemos vontade.

Estávamos saindo da adolescência e entrando na vida adulta e calamos a mulher forte e independente que estava nascendo em nós. Não éramos mais maduras, nem maiorais e muito menos inatingíveis.

Daí os anos foram passando e eu nunca esqueci esse episódio. Sempre lembrava daquilo e dizia pra mim mesma: “Tá muito errado isso aí.” Não foi certo, não é justo que isso continue acontecendo. Eu fui uma péssima amiga. Eu falhei quando ela mais precisava de apoio. Eu deixei que ela acreditasse que todas aquelas mentiras eram verdade e que sim, ela era uma vadia, puta, suja.

Não, amiga. Você não era nada daquilo, você apenas foi vítima.

Vítima como tantas outras mulheres. Situações parecidas já vimos em amigas, conhecidas e até com a gente mesma. A parte boa é que a gente cresce e passa a ter acesso a informação, como eu ao feminismo e agora ao projeto I AM THAT GIRL. E assim consegue abrir a mente, enxergar erro nas próprias atitudes e assim evitar que outras meninas sofram como essa minha amiga sofreu.

Hoje, eu criaria a hashtag #somostodasvadias e lutaria para que as pessoas não destruíssem a vida da minha amiga com mentiras, lutaria para deixar claro que todas temos o direito de fazer o que quisermos da nossa vida. Mas há 12 anos, fui covarde e me arrependo disso.

E mulheres, parem de julgar as outras mulheres! A gente foi criada assim, eu sei. É difícil, é contraditório, e eu mesma ainda estou passando por isso. Mas a gente precisa questionar e não aceitar tudo como nos é imposto. Homens estranhos quando se encontram num churrasco depois de 10 minutos são amigos, mulheres se dividem em rodinhas e 10 minutos depois estão malhando o outro grupo.

E sempre foi assim, desde o primário.

Mulheres não se veem como amigas, se enxergam como rivais. E olha, não sei se vocês sabem, mas estamos todas no mesmo barco. Somos julgadas, assediadas, discriminadas e estereotipadas todas da mesma forma. Deveríamos ser solidárias umas com as outras, mas muitas vezes ajudamos a disseminar fofocas, culpas e picuinhas.

O machismo está aí desde sempre e não vai sumir da noite pro dia. Mas está na hora de nós mulheres começarmos a mudar a maneira como nos vemos e nos unir pelo mesmo ideal.

E termos orgulho de todas sermos mulheres.

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6 comentários sobre “Eu acredito no Girl Power

  1. Mas esse texto é uma realidade TÃO grande. Conforme lia, fiz uma retrospectiva da minha adolescência, do quanto fui julgada e julguei – por vezes sem dó e nem piedade. Porque nessa fase da vida é “normal” botar o dedo no rosto da menina ao lado e não sabemos as consequências que isso causa. Não só pelo desconforto, pela vergonha, mas pela maneira como essa, e qualquer menina, passará a ver a si mesma.

    Há quem não discute, abraça tudo que se é sem medo de ser feliz com “tão pouca idade”, mas há outras que simplesmente não conseguem. E é algo ainda muito real, porque sexualidade é tratada/vista como uma forma de autoafirmação.

    É fato que sou do “slogan”: meu corpo, minhas regras. Qualquer mulher deve e pode se alimentar do que bem entender, falar o que bem entender, fazer sexo com quem bem entender. Não interessa se isso aos olhos alheios é vulgar, falta de educação, etc., etc., etc., até porque quem faz esses julgamentos, e se agarram a eles como verdade universal, são os que têm sérios problemas.

    Não há nada de errado em ser você mesma. Nem em dormir com X caras ou X mulheres – pq não? Isso não me torna menos mulher, uma vaca, me faz independente e autônoma de quem sou. Uma pena (talvez, não “pena”, mas um infortúnio) que para chegarmos a esse ponto precisamos viver. O importante é reconhecer e tentar mudar isso.

    E aqui estamos! ♥

    Curtido por 1 pessoa

    • Exatamente! Hoje eu consigo ver o quanto fui extremista nos meus julgamentos na adolescência e até há bem pouco tempo. E isso é bem triste.
      Eu também concordo com esse slogan “meu corpo, minhas regras”, se ela quer fazer sexo que faça, se ela quer beijar, que beije. Obviamente se cuidando e se prevenindo, que daí já é outro assunto. Mas muitas vezes o pior de tudo nem é ter feito, o pior são os boatos, as mentiras, ela beijou 5 e a história vai correndo e daqui a pouco os 5 viraram 50 na boca do povo. Essa é uma fase super delicada da vida de uma garota e acontecimentos como esse exemplo que eu dei podem marcar a vida de meninas pra sempre, de uma forma bem negativa. A menina enxerga toda a culpa nela, não vê que o problema maior vem de fora e dos outros. E se trava, se limita, se contenta com qualquer esmola afetiva porque na verdade ela nem merecia nada, porque é uma vadia. E quem é que dá mais força pra esse tipo de boato? Outras meninas! E isso tá muito errado. :/ Falta empatia entre as mulheres, falta se colocarem no lugar umas das outras antes de espalhar coisas desse tipo, antes de ofender.
      Pode reparar, todo xingamento feminino é pejorativo sexualmente: aquela vaca, aquela puta, aquela vagabunda, aquela piranha… Quem nunca chamou alguém assim na hora da raiva? Quantas vezes vocês já não viram alguém insultando a presidente Dilma dessa forma, por exemplo? Tá errado! Tá bem errado! Deveriam reclamar da falta de qualidades dela como líder política, não ofendê-la sexualmente. E isso é um problema cultural. Mas eu acredito que um dia vai ser derrubado, ô se vai!
      E como você disse, Stefs, aqui estamos pra isso! ❤

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  2. Pingback: Eu acredito no Girl Power | O Instável Mundo da Juh

  3. Exatamente! Hoje eu consigo ver o quanto fui extremista nos meus julgamentos na adolescência e até há bem pouco tempo. E isso é bem triste.
    Eu também concordo com esse slogan “meu corpo, minhas regras”, se ela quer fazer sexo que faça, se ela quer beijar, que beije. Obviamente se cuidando e se prevenindo, que daí já é outro assunto. Mas muitas vezes o pior de tudo nem é ter feito, o pior são os boatos, as mentiras, ela beijou 5 e a história vai correndo e daqui a pouco os 5 viraram 50 na boca do povo. Essa é uma fase super delicada da vida de uma garota e acontecimentos como esse exemplo que eu dei podem marcar a vida de meninas pra sempre, de uma forma bem negativa. A menina enxerga toda a culpa nela, não vê que o problema maior vem de fora e dos outros. E se trava, se limita, se contenta com qualquer esmola afetiva porque na verdade ela nem merecia nada, porque é uma vadia. E quem é que dá mais força pra esse tipo de boato? Outras meninas! E isso tá muito errado. :/ Falta empatia entre as mulheres, falta se colocarem no lugar umas das outras antes de espalhar coisas desse tipo, antes de ofender.
    Pode reparar, todo xingamento feminino é pejorativo sexualmente: aquela vaca, aquela puta, aquela vagabunda, aquela piranha… Quem nunca chamou alguém assim na hora da raiva? Quantas vezes vocês já não viram alguém insultando a presidente Dilma dessa forma, por exemplo? Tá errado! Tá bem errado! Deveriam reclamar da falta de qualidades dela como líder política, não ofendê-la sexualmente. E isso é um problema cultural. Mas eu acredito que um dia vai ser derrubado, ô se vai!
    E como você disse, Stefs, aqui estamos pra isso! ❤

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  4. Falou e disse tudo, Ju! O que acontece nos arredores rebate em nós. Por mais que juremos que não ficam marcas, que tudo foi superado, as cicatrizes são permanentes. Ainda mais para uma garota de 15,16,17 anos, idades em que, basicamente, se fomenta o caráter.

    Se a menina entende que ela beijar 5 caras a faz vadia, para controlar o “elogio”, ela aceitará qualquer esmola afetiva, como vc bem falou. Ela não se dará o valor não por ficar com 5 caras, mas por diminuir a si mesma por si mesma. Por achar que não merece mais, já que as pessoas a bloqueiam de dar passos mais largos.

    As pessoas são responsáveis em abaterem vários âmbitos da nossa vida,como autoestima. Há muito para destruir e pouco para elevar, porque ninguém pode ser bom o suficiente. É uma ameaça. Isso é muito do universo feminino e isso tem que parar. (ok que homens também puxam o tapete uns dos outros, mas eles não se combatem como duas mulheres – o que acho bem lastimável quando atinge os tais xingamentos, a fofoquinha, a picuinha, bleh).

    Uma hora isso acabará! E assistiremos de camarote.

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    • Tem coisas que não tem como esquecer. E isso é só uma das coisas, tem muita coisa que eu vi e vivi que eu considero muito errada, a gente desde pequena já se sente na obrigação de ser e fazer muitas coisas, tem toda uma cartilha de comportamento que a gente tem que seguir. Menina tem que gostar de rosa, menina tem que ser delicada, menina tem que pura e casta pra ser considerada menina “pra namorar e casar”. Se ela resolve sair ela muda de categoria e passa servir apenas pra diversão, porque quem vai querer casar com uma vadia? Daí imagina a cabeça da menina, porque como você disse, elas estão em formação! Como fica isso? :/
      E é uma grande merda essas coisas. Isso me revolta num tanto, porque eu mesma lembro de já ter pensado e me classificado nessas categorias e ter achado que eu não merecia o afeto que eu estava recebendo. E tá muito errado! A autoestima de muitas meninas vem sendo destruída por padrões absurdos de comportamento e eu não quero mais ver isso. É como você disse, ninguém eleva qualidades, só busca defeitos! Não interessa se ela é inteligente, só interessa se ela é santa ou pecadora. Quero que as próximas gerações não passem por esse tipo de coisa! ❤ E eu acredito que jogar o assunto na roda e colocar em xeque tudo isso ajuda a começar a mudança! E sim, assistiremos de camarote! *-*

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